Pix e Bancos

Golpe do abate ao porco: Entenda a fraude que fez aposentada perder r$ 37 milhões

Golpe do abate ao porco cria falsa relação de confiança, simula investimentos lucrativos e estimula vítimas a transferir valores cada vez maiores

O golpe do abate ao porco, uma fraude internacional conhecida como pig butchering, fez uma aposentada de 70 anos perder R$ 37 milhões no Rio Grande do Sul. A vítima acreditava que estava investindo dinheiro por meio de uma plataforma legítima, mas os valores eram enviados para uma estrutura controlada por criminosos.

O caso levou a Polícia Civil do Rio Grande do Sul a deflagrar, em 13 de agosto de 2026, a Operação Criptoabate. A investigação atingiu suspeitos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo. No dia seguinte, outro investigado foi preso no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, com apoio da Polícia Federal.

O prejuízo milionário chama atenção, mas o principal alerta está no método. Diferentemente de golpes que pressionam a vítima a fazer um Pix imediatamente, essa fraude pode ser construída durante semanas ou meses. Os criminosos conquistam confiança, apresentam falsos resultados positivos e estimulam investimentos cada vez maiores.

COMO FUNCIONA O GOLPE DO ABATE AO PORCO

O nome vem da expressão inglesa pig butchering. No contexto das fraudes digitais, descreve um esquema em que criminosos constroem uma relação de confiança com a vítima antes de retirar dela quantias cada vez maiores.

No caso investigado no Rio Grande do Sul, a vítima foi inserida em um grupo de mensagens que simulava uma comunidade dedicada a estudos e investimentos no mercado financeiro.

Segundo as informações divulgadas sobre a investigação, havia um suposto professor ou especialista que apresentava análises, orientações e oportunidades de investimento. Outros integrantes do grupo ajudavam a criar a impressão de que aquela comunidade era verdadeira.

A vítima era direcionada a uma plataforma que mostrava resultados aparentemente positivos. Com a sensação de que os investimentos estavam dando lucro, ela era incentivada a realizar novos aportes.

O processo teria ocorrido durante cerca de seis meses. Ao final, a aposentada havia transferido R$ 37 milhões.

FALSA PLATAFORMA MOSTRAVA LUCROS QUE NÃO PODIAM SER SACADOS

Um dos elementos mais perigosos desse tipo de golpe é a possibilidade de a vítima visualizar na tela um patrimônio que, na prática, não está disponível para ela.

A plataforma pode apresentar gráficos, saldos e supostos rendimentos para criar a impressão de que o investimento está funcionando.

O problema aparece quando a vítima tenta sacar.

Na fraude investigada pela Polícia Civil gaúcha, os saques eram bloqueados. Em seguida, surgiam novas cobranças, apresentadas como taxas, impostos ou valores necessários para liberar o patrimônio.

Esse é um sinal crítico de alerta. Pagar mais dinheiro para conseguir retirar um investimento que já deveria estar disponível pode fazer parte da própria fraude.

GOLPISTAS CRIAM UM GRUPO PARA PARECER QUE TODOS ESTÃO GANHANDO

O grupo de mensagens tem papel importante na engenharia social do golpe.

Em vez de depender apenas da palavra de um desconhecido, a vítima encontra um ambiente no qual várias pessoas aparentemente discutem investimentos, compartilham resultados e demonstram confiança no suposto especialista.

Isso cria uma falsa sensação de consenso.

O fato de dezenas ou centenas de perfis participarem de um grupo não comprova que o investimento seja verdadeiro. Alguns participantes podem fazer parte da própria estrutura da fraude ou estar sendo enganados.

Segundo informações divulgadas durante a investigação, o grupo no qual estava a aposentada tinha cerca de 140 integrantes. A polícia também identificou outras vítimas em diferentes estados, algumas com prejuízos individuais superiores a R$ 8 milhões.

POR QUE A VÍTIMA CONTINUA COLOCANDO DINHEIRO?

Essa pergunta ajuda a entender por que o golpe pode causar prejuízos tão elevados.

Os criminosos não precisam pedir uma fortuna logo no primeiro contato. Eles podem começar construindo credibilidade e apresentando supostos ganhos.

Quando a pessoa acredita que os primeiros aportes deram resultado, fica mais propensa a investir novamente.

Há ainda outro fator. Depois de colocar uma quantia elevada, a vítima pode aceitar pagar uma nova taxa na tentativa de recuperar o dinheiro anterior. É justamente essa expectativa que os criminosos exploram.

Por isso, a fraude não deve ser tratada como simples ingenuidade de quem caiu no golpe. Trata-se de uma estratégia de manipulação construída para reduzir gradualmente a desconfiança e aumentar o comprometimento financeiro.

APOSENTADA PERDEU R$ 37 MILHÕES EM SEIS MESES

O caso que levou à Operação Criptoabate começou a ser investigado depois que a aposentada denunciou o prejuízo.

Durante aproximadamente seis meses, ela acreditou estar realizando investimentos pela internet e foi orientada por pessoas que se apresentavam como conhecedoras do mercado financeiro.

A Polícia Civil passou então a investigar o caminho percorrido pelo dinheiro e a estrutura financeira utilizada pelo grupo.

Em 13 de agosto, a operação cumpriu mandados no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo.

No dia seguinte, um investigado apontado como dono de uma das instituições financeiras envolvidas foi preso no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Segundo informações divulgadas sobre a investigação, uma conta bancária vinculada a ele teria recebido R$ 77 milhões.

INVESTIGAÇÃO APONTA OUTRAS POSSÍVEIS VÍTIMAS

Os R$ 37 milhões não seriam necessariamente o único prejuízo provocado pelo esquema investigado.

A Polícia Civil identificou possíveis vítimas em outros estados. Uma delas, no Rio de Janeiro, teria perdido mais de R$ 8 milhões.

A investigação também apura a participação de instituições financeiras e pessoas responsáveis pela circulação e conversão dos recursos.

Parte do dinheiro teria sido convertida em criptoativos. O uso de criptomoedas, porém, não significa que toda operação com esse tipo de ativo seja fraudulenta. O alerta está na combinação entre promessa de lucro, falsa plataforma, pressão para novos depósitos e dificuldade para retirar o dinheiro.

COMO IDENTIFICAR UMA FALSA PLATAFORMA DE INVESTIMENTOS

Antes de transferir dinheiro, não confie apenas no aplicativo, no site, nos gráficos apresentados ou nos depoimentos encontrados em grupos de mensagens.

Verifique quem é a empresa responsável pela oferta e se ela está autorizada a prestar o serviço apresentado.

A Comissão de Valores Mobiliários mantém ferramentas para consulta de participantes do mercado e também recebe denúncias sobre ofertas irregulares. A consulta deve ser feita diretamente no site oficial da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM.

Também é possível consultar informações sobre instituições supervisionadas diretamente no Banco Central do Brasil.

Não faça a verificação utilizando apenas links enviados pela pessoa que está oferecendo o investimento. Digite você mesmo o endereço do órgão oficial ou faça a busca por uma fonte confiável.

DESCONFIE QUANDO PEDIREM MAIS DINHEIRO PARA LIBERAR O SAQUE

Este é um dos sinais mais importantes revelados pelo caso.

Se o suposto investimento mostra um saldo elevado, mas o dinheiro não pode ser retirado sem o pagamento de uma nova taxa, interrompa as transferências e verifique a situação.

Não tente recuperar o valor perdido enviando sucessivamente novos pagamentos.

O Antes de Clicar já explicou quais sinais devem ser observados antes de fazer uma transferência por Pix.

Se você já realizou uma transferência e percebeu que caiu em uma fraude, consulte também nosso guia sobre o que fazer imediatamente depois de enviar um Pix em um golpe.

GRUPO DE WHATSAPP NÃO É GARANTIA DE INVESTIMENTO LEGÍTIMO

Desconfie de grupos que apresentam um suposto especialista como autoridade incontestável e mostram participantes relatando lucros constantes.

Resultados exibidos na tela podem ser manipulados. Perfis podem ser falsos. Depoimentos também podem ter sido preparados para convencer novos participantes.

Uma mensagem bem escrita, um site profissional e dezenas de comentários positivos não substituem a verificação independente.

Se a abordagem começou pelo WhatsApp, veja também como identificar sinais de uma mensagem falsa no WhatsApp.

INVESTIMENTO COM LUCRO ALTO E APARENTEMENTE FÁCIL EXIGE CAUTELA

Promessas de rentabilidade muito acima do mercado devem ser analisadas com cuidado, principalmente quando acompanhadas de pressão para investir rapidamente.

Desconfie também quando alguém disser que existe uma oportunidade exclusiva, disponível apenas por poucas horas ou reservada aos integrantes de determinado grupo.

O objetivo da urgência pode ser impedir que a vítima tenha tempo para pesquisar a empresa, consultar profissionais independentes ou conversar com familiares.

Antes de investir uma quantia relevante, procure informações fora do ambiente apresentado por quem oferece a oportunidade.

CAIU NO GOLPE DO FALSO INVESTIMENTO? PARE DE TRANSFERIR DINHEIRO

Ao perceber que uma plataforma pode ser falsa, a primeira providência é interromper novos pagamentos.

Não apague conversas, comprovantes, endereços de sites, nomes utilizados pelos supostos consultores ou registros das transferências.

Faça capturas de tela e preserve o máximo possível de informações.

O Antes de Clicar mantém um passo a passo sobre como denunciar um golpe digital sem perder as provas.

Também é importante avisar imediatamente a instituição financeira utilizada nas transferências e registrar a ocorrência junto às autoridades.

GOLPE DO ABATE AO PORCO: 8 SINAIS DE ALERTA

  • contato inesperado oferecendo oportunidade de investimento;
  • entrada em grupo de mensagens com supostos especialistas;
  • participantes exibindo lucros frequentes;
  • promessa de rentabilidade elevada ou aparentemente fácil;
  • plataforma indicada pelo próprio grupo;
  • pressão para aumentar os aportes;
  • dificuldade ou bloqueio na hora de sacar;
  • cobrança de novas taxas ou impostos para liberar o dinheiro.

GOLPE DO ABATE AO PORCO EXPLORA CONFIANÇA, NÃO APENAS TECNOLOGIA

O caso dos R$ 37 milhões mostra por que esse tipo de fraude pode causar prejuízos tão altos. O principal instrumento dos criminosos não é apenas uma plataforma falsa. É a confiança construída ao longo do tempo.

O ambiente pode parecer profissional, o suposto especialista pode demonstrar conhecimento e a plataforma pode mostrar números positivos. Ainda assim, o dinheiro pode não estar sendo investido.

Antes de fazer novos aportes, tente sacar parte do dinheiro, confira a empresa em fontes oficiais e procure uma segunda opinião independente. Se o saque for bloqueado e alguém exigir mais dinheiro para liberar o saldo, não faça outra transferência.

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