IA e Deepfake

Golpe do dinossauro: Vídeo criado por IA quase faz homem pagar r$ 500 por animal que não existe

Golpe do dinossauro usou vídeo gerado por inteligência artificial, falsos relatos de compradores e cobrança antecipada por Pix para tentar convencer vítima em Minas Gerais

O golpe do dinossauro chamou atenção nas redes sociais depois que um homem de cerca de 40 anos quase pagou R$ 500 por supostos minidinossauros anunciados pelo WhatsApp. O caso aconteceu em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Os animais mostrados no vídeo não existiam. As imagens haviam sido produzidas com inteligência artificial.

O episódio parece inusitado, mas traz um alerta sério. Ferramentas de inteligência artificial permitem produzir imagens e vídeos cada vez mais convincentes, e esse material pode ser incorporado a anúncios falsos para induzir consumidores a realizar pagamentos.

No caso mineiro, o interessado chegou a conversar com o suposto vendedor e pediu novas imagens dos animais. A resposta aumentou a desconfiança: mais fotos e vídeos só seriam enviados depois do pagamento de R$ 500 por Pix.

Antes de transferir o dinheiro, ele consultou outra pessoa e desistiu da compra. Não houve prejuízo financeiro.

COMO FUNCIONOU O GOLPE DO DINOSSAURO

O anúncio circulou pelos status do WhatsApp e mostrava pequenas criaturas semelhantes a dinossauros caminhando em um ambiente que lembrava um criadouro.

A aparência do vídeo ajudava a sustentar uma história impossível: a de que aqueles animais estariam disponíveis para compra.

Segundo relatos publicados pela imprensa, o anunciante oferecia os supostos minidinossauros por R$ 500.

Além do vídeo, eram exibidas capturas de tela de supostas conversas com clientes satisfeitos. Essas mensagens funcionavam como uma espécie de prova social, dando ao interessado a impressão de que outras pessoas já tinham comprado e recebido os animais.

Também havia pressão para decidir rapidamente. Novas publicações indicavam que algumas unidades já estariam reservadas e que as vendas passariam a ocorrer somente por encomenda.

GOLPE DO DINOSSAURO USOU VÍDEO CRIADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Um detalhe no próprio vídeo ajudava a revelar a manipulação.

A gravação apresentava uma marca d’água do Gemini, ferramenta de inteligência artificial do Google, indicando a origem sintética das imagens.

Isso não significa que todo conteúdo produzido por inteligência artificial seja fraudulento. O problema surge quando uma imagem, um áudio ou um vídeo sintético é apresentado como verdadeiro para enganar alguém ou induzir uma decisão financeira.

A Anatel já alertou para o crescimento dos riscos associados a imagens, vídeos e áudios manipulados. Em campanha sobre segurança digital, a agência destacou que conteúdos produzidos ou alterados com tecnologias avançadas podem apresentar alto grau de realismo e ser usados para obter dados ou provocar prejuízos financeiros.

Veja as orientações na campanha oficial da Anatel sobre conteúdos manipulados e golpes digitais.

HOMEM PEDIU NOVAS IMAGENS ANTES DE FAZER O PIX

A atitude do interessado foi determinante para evitar o prejuízo.

Em vez de transferir imediatamente os R$ 500, ele pediu novas fotos e vídeos dos supostos animais.

O vendedor respondeu que precisaria se deslocar até o local onde os animais estariam e que só faria isso depois do pagamento.

A exigência deve servir de alerta para outras compras feitas pela internet. Se alguém afirma possuir determinado produto, mas se recusa a apresentar provas adicionais antes de receber o dinheiro, interrompa a negociação e faça verificações independentes.

O Antes de Clicar já explicou quais sinais devem ser observados antes de fazer uma transferência por Pix.

FALSOS CLIENTES PODEM FAZER UM ANÚNCIO PARECER CONFIÁVEL

Outro elemento utilizado no episódio foram as supostas conversas de compradores satisfeitos.

Prints de mensagens, avaliações e depoimentos não devem ser considerados prova suficiente de que uma oferta é verdadeira. Imagens de conversas podem ser fabricadas, editadas ou retiradas de outro contexto.

O mesmo cuidado vale para comentários em redes sociais e avaliações apresentadas pelo próprio vendedor.

Procure referências fora do perfil que está fazendo a oferta. Pesquise o nome do vendedor, da empresa, telefone, endereço e características do produto em fontes independentes.

PRESSA PARA COMPRAR TAMBÉM É SINAL DE ALERTA

No caso dos minidinossauros, o interessado também foi exposto à ideia de que as unidades estavam acabando.

Esse tipo de mensagem tenta reduzir o tempo disponível para pensar, pesquisar e conversar com outras pessoas.

Expressões como “últimas unidades”, “pague agora”, “só hoje” e “última oportunidade” podem aparecer em promoções legítimas, mas também são utilizadas em fraudes para acelerar uma decisão.

Quanto mais extraordinária for a oferta, maior deve ser a disposição para conferir antes de pagar.

SE A IMAGEM PARECE REAL, ISSO NÃO SIGNIFICA MAIS QUE ELA SEJA REAL

O golpe do dinossauro é um exemplo extremo, mas ajuda a visualizar uma mudança importante na segurança digital.

Durante muito tempo, imagens mal recortadas, montagens grosseiras e erros visuais eram pistas relativamente fáceis de perceber. A inteligência artificial tornou esse critério menos confiável.

Hoje, uma imagem bonita e um vídeo aparentemente convincente não bastam para provar que um produto, uma pessoa ou uma situação realmente existem.

Órgãos públicos brasileiros também vêm alertando para esse risco. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República informa que imagens e áudios produzidos com inteligência artificial podem ser usados em golpes financeiros e para convencer pessoas de que determinado conteúdo é verdadeiro.

O Antes de Clicar mantém outros alertas sobre esse problema. Veja como conferir um vídeo suspeito antes de compartilhar e entenda também o que é deepfake e como esse tipo de manipulação funciona.

COMO IDENTIFICAR IMAGENS E VÍDEOS CRIADOS POR IA

Não existe um único teste capaz de identificar todo conteúdo produzido por inteligência artificial. As ferramentas evoluem rapidamente e muitos defeitos que antes denunciavam uma imagem sintética estão ficando menos evidentes.

Mesmo assim, alguns sinais merecem atenção.

  • procure marcas d’água ou indicações de que o conteúdo foi produzido por uma ferramenta de IA;
  • observe movimentos estranhos, objetos que mudam de forma e detalhes inconsistentes entre os quadros;
  • desconfie de mãos, patas, dentes, sombras, reflexos e texturas que mudam sem explicação;
  • observe se movimentos e proporções fazem sentido;
  • pesquise se outras fontes confiáveis mostram o mesmo produto ou situação;
  • peça imagens adicionais e procure comparar detalhes entre elas;
  • não considere um vídeo isolado como prova suficiente para fazer um pagamento.

Mais importante do que procurar defeitos visuais é verificar a história apresentada pelo anúncio. Um conteúdo tecnicamente perfeito ainda pode mostrar algo que nunca aconteceu.

IA TAMBÉM PODE SER USADA PARA CRIAR PESSOAS QUE NÃO EXISTEM

O problema não se limita a animais ou produtos.

Em agosto, a Anvisa alertou para perfis que utilizam personagens criados por inteligência artificial para divulgar e vender conteúdos relacionados à saúde. Segundo a agência, há casos de supostos gurus que não existem no mundo real, mas aparecem nas redes sociais apresentando receitas e conhecimentos atribuídos a eles.

O exemplo reforça uma regra simples: antes de confiar na aparência de uma pessoa, produto ou situação apresentada em um vídeo, procure confirmar se aquilo existe fora daquela publicação.

O Antes de Clicar também já mostrou como anúncios podem usar rosto ou voz de pessoas conhecidas em deepfakes para aplicar golpes.

ANTES DE COMPRAR ALGO QUE VOCÊ VIU NO WHATSAPP, SAIA DO WHATSAPP

Essa é uma das melhores práticas para reduzir o risco.

Se a oferta chegou pelo WhatsApp, não faça toda a verificação dentro da própria conversa.

Pesquise o produto na internet. Procure referências independentes. Verifique quem está recebendo o dinheiro. Compare preços e veja se empresas conhecidas comercializam algo semelhante.

Se houver uma empresa envolvida, procure o site oficial digitando o endereço diretamente no navegador ou utilizando uma busca independente.

Também não confie apenas na fotografia e no nome apresentados pelo perfil do WhatsApp. Essas informações podem ser copiadas.

Veja ainda nosso guia sobre como identificar uma mensagem falsa no WhatsApp.

PIX DE R$ 500 NÃO CHEGOU A SER REALIZADO

Apesar da repercussão do caso, é importante fazer uma distinção.

O homem não chegou a transferir os R$ 500. Ele desconfiou da oferta antes do pagamento e, portanto, não sofreu prejuízo financeiro.

A Polícia Civil de Minas Gerais foi procurada pela imprensa para informar se havia investigação sobre a suposta venda e se outras pessoas poderiam ter sido vítimas. Segundo a resposta divulgada, não foi localizado registro de ocorrência relacionado ao episódio.

Isso significa que não há, até o momento das informações consultadas por esta reportagem, confirmação policial de outras vítimas do mesmo anúncio.

A orientação da Polícia Civil é que pessoas efetivamente lesadas por golpes procurem uma delegacia ou unidade policial e registrem a ocorrência.

JÁ PAGOU POR PIX? AVISE O BANCO RAPIDAMENTE

Se você realizou um Pix depois de acreditar em um anúncio falso, entre em contato imediatamente com sua instituição financeira e relate a fraude.

O Banco Central orienta vítimas de golpes a comunicar o banco e registrar boletim de ocorrência com as informações e documentos disponíveis.

As orientações oficiais podem ser consultadas na página do Banco Central sobre prevenção e providências após golpes.

Veja também o passo a passo do Antes de Clicar sobre o que fazer depois de enviar um Pix em um golpe.

Não apague conversas, anúncios, comprovantes, nomes de usuário ou números de telefone. Essas informações podem ser importantes para o registro da ocorrência.

Nosso guia sobre como denunciar um golpe digital sem perder as provas explica quais registros devem ser preservados.

GOLPE DO DINOSSAURO: 8 CUIDADOS ANTES DE ACREDITAR EM UM ANÚNCIO

  • não confie em uma oferta apenas porque há fotos ou vídeos;
  • considere que imagens convincentes podem ter sido produzidas por IA;
  • pesquise o produto fora das redes sociais e aplicativos de mensagens;
  • não confie apenas em prints de supostos clientes satisfeitos;
  • desconfie quando o vendedor cria urgência para o pagamento;
  • peça novas provas da existência do produto;
  • confira cuidadosamente o destinatário antes de fazer um Pix;
  • na dúvida, não pague até conseguir verificar a oferta de forma independente.

GOLPE DO DINOSSAURO DEIXA UM ALERTA QUE VAI ALÉM DO CASO

É fácil olhar para a história de um minidinossauro de R$ 500 e enxergar apenas uma situação curiosa. Mas o método utilizado merece atenção.

Troque o dinossauro por um animal de raça, celular, carro, imóvel, produto importado ou qualquer objeto desejado. A mesma combinação pode ser utilizada: vídeo produzido por IA, depoimentos falsos, poucas unidades disponíveis e pedido de pagamento antecipado.

A tecnologia muda. A regra de proteção continua simples.

Antes de acreditar no que aparece na tela, confirme se aquilo existe fora dela. E antes de fazer um Pix, pare, pesquise e confira quem vai receber o dinheiro.

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