IA e Deepfake

Golpe da falsa audiência com IA faz idoso perder R$ 324 mil

Criminosos simularam uma audiência judicial com juiz, promotor e advogados para convencer a vítima a fazer transferências bancárias. Entenda como funciona a fraude e saiba como se proteger.

A falsa audiência judicial, criada com o auxílio de inteligência artificial, foi usada por criminosos para enganar um empresário de 72 anos e provocar um prejuízo de aproximadamente R$ 324,8 mil. A fraude simulava uma videoconferência com juiz, promotor e advogados, dando a aparência de um procedimento legítimo da Justiça. O caso foi revelado pelo Jornal da Record, em reportagem publicada no portal R7, em 22 de outubro de 2026.

Tudo começou quando um criminoso se passou pelo advogado da vítima e anunciou uma suposta vitória em uma ação judicial. Para receber o dinheiro, o empresário teria que participar de uma audiência virtual. Convencido de que estava diante de autoridades judiciais, ele realizou três transferências bancárias antes de descobrir que havia caído em um golpe.

O episódio chama a atenção para uma modalidade de fraude que combina informações verdadeiras sobre processos, falsificação de identidade e recursos tecnológicos capazes de produzir imagens convincentes.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) já havia alertado sobre criminosos que se passam por advogados e utilizam dados judiciais para exigir pagamentos antecipados. Agora, a possibilidade de simular ambientes e participantes de uma audiência torna esse tipo de golpe ainda mais difícil de reconhecer apenas pela aparência.

Uma audiência que nunca existiu

De acordo com a reportagem original do R7, o primeiro contato com Elias partiu de um criminoso que se apresentou como seu advogado.

O suposto profissional informou que uma ação judicial havia sido vencida, mas que seria necessário participar de uma audiência para dar andamento à liberação dos valores.

O empresário aceitou participar da reunião virtual. Ao entrar na chamada, encontrou uma cena que aparentava reunir autoridades judiciais e profissionais da advocacia.

A reportagem explica que a vara criminal mencionada pelos golpistas existe de verdade. Entretanto, a imagem utilizada na falsa audiência havia sido produzida com inteligência artificial.

Durante a reunião, os criminosos passaram a solicitar transferências bancárias. Convencido de que estava diante de um procedimento legítimo, Elias realizou três operações, que somaram aproximadamente R$ 324,8 mil.

Depois de descobrir a fraude, o empresário decidiu recorrer à Justiça contra o banco que autorizou as movimentações, conforme informou a Record. Não há, na reportagem consultada, confirmação sobre eventual recuperação dos valores.

Golpe da falsa audiência empresário Elias José Salomão
Golpe da falsa audiência com empresário Elias José Salomão – Imagem: Portal R7

Como funciona o golpe da falsa audiência judicial?

A fraude reúne diferentes estratégias de manipulação. Primeiro, os criminosos procuram informações que possam dar credibilidade à abordagem. Depois, assumem a identidade de alguém conhecido ou de uma autoridade. Por fim, apresentam uma justificativa para exigir dinheiro.

No caso relatado pela Record, a encenação foi reforçada por imagens produzidas com inteligência artificial.

Os principais passos desse tipo de golpe são:

  1. Contato em nome de um advogado: a vítima recebe uma mensagem ou ligação de alguém que afirma representar seu escritório de advocacia.
  2. Uso de informações verdadeiras: os criminosos mencionam processos, nomes ou situações jurídicas reais para conquistar confiança.
  3. Notícia de uma suposta vitória judicial: a vítima é informada de que tem dinheiro a receber.
  4. Convocação para uma audiência virtual: surge um convite para participar de uma reunião que parece oficial.
  5. Exigência de pagamento: os golpistas alegam que uma transferência é necessária para liberar valores ou concluir procedimentos.

A inteligência artificial não precisa participar de todas essas etapas. Sua utilização amplia a capacidade de criar cenários falsos, imagens de pessoas e outros elementos destinados a convencer a vítima.

Em nosso guia Deepfake: como identificar vídeos, imagens e áudios falsos antes de cair em golpes, explicamos como conteúdos produzidos ou manipulados com inteligência artificial podem ser utilizados para simular pessoas e situações.

Justiça alerta: dados verdadeiros não garantem que a comunicação seja legítima

O golpe da falsa audiência não é um caso isolado de utilização indevida do nome do Poder Judiciário.

Em setembro de 2026, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) divulgou orientações sobre criminosos que se apresentam como juízes, servidores, advogados, defensores públicos ou integrantes do Ministério Público.

Segundo o tribunal, os contatos fraudulentos podem ocorrer por WhatsApp, telefone, e-mail e chamadas de vídeo. Há, inclusive, registros de simulações de audiências virtuais.

Um detalhe merece atenção: os golpistas podem utilizar nomes, fotografias, logotipos e informações verdadeiras sobre processos judiciais.

Isso significa que a pessoa pode conhecer corretamente seu nome, o número de sua ação e até detalhes sobre o andamento do processo, sem que tenha qualquer vínculo com a Justiça.

O TJDFT também esclarece que não cobra valores para cadastrar usuários ou liberar dinheiro de processos judiciais.

Existem despesas processuais legítimas em determinadas situações, mas elas seguem procedimentos formais. Uma cobrança inesperada durante uma videochamada, acompanhada de pressão para transferir dinheiro, deve ser tratada como sinal de possível fraude.

O Antes de Clicar já abordou uma estratégia semelhante na reportagem Golpe da falsa intimação: recebeu uma convocação por telefone ou e-mail? Saiba o que fazer.

A inteligência artificial tornou os golpes mais convincentes?

A inteligência artificial facilita a produção de conteúdos capazes de reproduzir vozes, rostos e ambientes que parecem reais.

No caso da falsa audiência, ela foi utilizada, segundo o R7, para construir a aparência de uma reunião judicial. Isso não significa necessariamente que todos os participantes exibidos fossem reproduções digitais de pessoas reais. A reportagem não apresenta uma análise técnica independente detalhando como cada elemento foi produzido.

Ainda assim, o episódio demonstra um problema: reconhecer uma pessoa pela imagem ou pela voz já não é suficiente para garantir que estamos falando com ela.

Os chamados deepfakes podem ser utilizados para imitar familiares, profissionais, celebridades e autoridades. Dependendo dos recursos empregados, a manipulação pode ser difícil de perceber.

Por isso, identificar falhas visuais não deve ser a única estratégia de proteção.

A recomendação mais segura continua sendo confirmar a identidade de quem entrou em contato por um canal independente, especialmente quando existe pedido de pagamento.

Cinco sinais de que uma audiência judicial pode ser falsa

Mesmo quando a reunião parece verdadeira, alguns comportamentos devem despertar desconfiança:

  • Pedido inesperado de dinheiro: alguém informa que é necessário transferir uma quantia para receber valores de uma ação.
  • Pressa para pagar: o interlocutor afirma que o procedimento precisa ser concluído imediatamente.
  • Contato desconhecido: o suposto advogado utiliza um número diferente daquele que você já conhece.
  • Orientação para manter segredo: os participantes desencorajam a consulta a familiares, advogados ou ao próprio tribunal.
  • Pagamento para contas não verificadas: os valores devem ser enviados a uma pessoa física ou empresa sem comprovação de vínculo com o procedimento judicial.

Nenhum desses sinais deve ser ignorado.

Também é importante lembrar que audiências por videoconferência realmente existem. Portanto, receber um convite virtual não significa, por si só, que exista uma fraude. O risco aparece quando não é possível confirmar a origem da comunicação ou quando surgem exigências financeiras suspeitas.

Como confirmar se uma audiência judicial é verdadeira?

Antes de participar de uma reunião ou realizar qualquer pagamento relacionado a um processo, consulte informações por meios oficiais.

Entre em contato com seu advogado ou escritório de advocacia pelo telefone que você já utilizava anteriormente. Não confie apenas no número apresentado na mensagem recebida.

Também é possível consultar o andamento processual diretamente no site do tribunal responsável pela ação.

Se a comunicação mencionar um profissional desconhecido, utilize os recursos de verificação oferecidos pela Ordem dos Advogados do Brasil. A plataforma ConfirmADV foi criada para ajudar cidadãos a conferir a identidade de profissionais da advocacia.

A consulta não substitui a confirmação direta de que determinado advogado participa efetivamente do processo.

No Distrito Federal, o TJDFT disponibiliza canais de atendimento para esclarecer dúvidas sobre comunicações atribuídas ao tribunal.

Outra precaução é não instalar aplicativos, compartilhar senhas ou permitir acesso remoto ao celular e ao computador a pedido de supostos representantes da Justiça.

Caiu no golpe da falsa audiência? Saiba o que fazer

Quem realizou uma transferência bancária após ser enganado deve agir rapidamente.

A primeira providência é entrar em contato com a instituição financeira e informar que a operação foi decorrente de uma fraude. Solicite a análise das transferências e registre formalmente a contestação.

Se o dinheiro foi enviado por Pix, peça a abertura do Mecanismo Especial de Devolução (MED).

Segundo o Banco Central, o MED permite que instituições financeiras analisem transações suspeitas e tentem recuperar valores transferidos em situações de fraude.

O pedido pode ser feito em até 80 dias após a transação, mas quanto mais cedo a vítima comunicar o golpe, maiores poderão ser as possibilidades de bloquear recursos ainda disponíveis.

É importante esclarecer que o mecanismo não garante a devolução do dinheiro. O resultado depende da análise da fraude e da disponibilidade de recursos nas contas envolvidas.

Além de procurar o banco, a vítima deve registrar boletim de ocorrência e preservar mensagens, números telefônicos, convites de reunião, capturas de tela e comprovantes das transferências.

O Antes de Clicar reúne orientações detalhadas nos conteúdos Fiz um Pix e caí em um golpe: o que fazer agora? e Como denunciar golpes digitais: veja os canais oficiais e o que fazer.

Leia também: Deepfake: quando vídeo, áudio ou imagem parecem reais, mas podem ser golpe

O que o caso de Elias ensina sobre segurança digital

O empresário de 72 anos não foi enganado por uma simples mensagem mal escrita ou por uma promessa claramente fantasiosa.

Segundo a reportagem, os criminosos construíram uma situação que parecia fazer sentido. Havia uma ação judicial, um suposto advogado, uma audiência virtual e pessoas aparentando exercer funções oficiais.

É justamente essa combinação de elementos conhecidos que pode tornar a fraude convincente.

O episódio também mostra por que a prevenção não deve se limitar à recomendação de desconfiar de desconhecidos. Criminosos podem assumir a identidade de profissionais com os quais a vítima já mantém contato.

A proteção depende de procedimentos simples, mas que precisam ser adotados antes de qualquer pagamento: interromper a conversa, verificar a informação e confirmar a identidade do interlocutor por outro canal.

Nenhuma pessoa deve se sentir constrangida por fazer essas verificações, mesmo quando o contato parece partir de uma autoridade.

Antes de clicar, confira

Recebeu uma mensagem informando que ganhou uma ação judicial? Foi convidado para uma audiência virtual? Alguém pediu dinheiro para liberar uma indenização?

Não realize pagamentos antes de confirmar a autenticidade da solicitação diretamente com seu advogado e com o tribunal responsável.

Uma imagem convincente, um documento aparentemente oficial ou uma pessoa vestida como autoridade não substituem essa verificação.

Para acompanhar outros alertas e orientações, consulte o Radar de Golpes do Antes de Clicar ou procure os órgãos competentes em nossa Central de Contatos.

Antes de clicar, confira. Antes de pagar, confirme.

Fonte principal: Jornal da Record/R7, reportagem publicada em 22 de outubro de 2026. Informações complementares: Conselho Nacional de Justiça, Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, Ordem dos Advogados do Brasil e Banco Central do Brasil.

Este conteúdo é informativo e orientativo. O Antes de Clicar não recebe denúncias oficiais nem substitui o atendimento bancário, policial, jurídico ou dos órgãos públicos competentes.

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